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Questão do ENEM 2023

Linguagens e Códigos · habilidade 15Caderno Rosa · Questão 20

Era um gato preto, como convinha a um cultor das boas letras, que já lera Poe traduzido por Baudelaire. Preto e gordo. E lerdo. Tão gordo e lerdo que a certa altura observei que ia perdendo inteiramente as qualidades características da raça, que são em suma o ódio de morte aos ratos. Já nem os afugentava! Os ratos de Ouro Preto são também dignos e solenes — não ria — tradicionalistas... descendentes de outros ratos que naqueles mesmos casarões presenciaram acontecimentos importantes da nossa história... No sobrado do desembargador Tomás Antônio Gonzaga, imagine o senhor uma reunião dos sonhadores inconfidentes, com os antepassados daqueles ratos a passearem pelo sótão ou mesmo pelo assoalho por entre as pernas dos homens absortos na esperança da independência nacional! E depois, os ancestres daqueles roedores que eu via agora deslizar sutilmente no meu quarto podiam ter subido pelo poste da ignomínia colonial, onde estava exposta a cabeça do Tiradentes! E quando as órbitas se descarnaram ignominiosamente, podiam até ter penetrado no recesso daquele crânio onde verdadeiramente ardera a literatura, com a simplicidade do heroísmo, a febre nacionalista...

ALPHONSUS, J. Contos e novelas. Rio de Janeiro: Imago; Brasília: INL, 1976.

Descrevendo seu gato, o narrador remete ao contexto e a protagonistas da Inconfidência para criar um efeito desconcertante centrado no

  1. Alternativa A: desenho imaginativo do casario colonial de Ouro Preto.
    Justificativa

    Esta alternativa está errada. O narrador não descreve o casario de Ouro Preto; ele cita o sobrado de Gonzaga só como cenário das reuniões dos inconfidentes e para situar os ratos. O foco não é a imaginação do espaço urbano.

    Não revisado · Explicação gerada por IA; pode conter erros.

  2. Alternativa B: efeito de apagamento de limites entre ficção e realidade.
    Justificativa

    Esta alternativa está errada. O texto mistura história e ficção, mas o efeito não é apagar limites entre elas; trata-se de uma narrativa claramente ficcional, em que o humor vem da comparação entre planos distintos.

    Não revisado · Explicação gerada por IA; pode conter erros.

  3. Alternativa C: vínculo estabelecido entre animais urbanos e literatura.
    Justificativa

    Esta alternativa está errada. A referência a Poe e Baudelaire só caracteriza o narrador como leitor culto. O texto não estabelece ligação entre animais urbanos e literatura como eixo do efeito.

    Não revisado · Explicação gerada por IA; pode conter erros.

  4. Alternativa D: questionamento sutil quanto à sanidade dos inconfidentes.
    Justificativa

    Esta alternativa está errada. Os inconfidentes são lembrados com sonhos, esperança e heroísmo, sem dúvida sobre sua sanidade. O texto os trata com solenidade, e a ironia recai sobre a associação com os ratos.

    Não revisado · Explicação gerada por IA; pode conter erros.

  5. Alternativa E: contraste entre austeridade pomposa e imagem repugnante. gabarito
    Justificativa

    Esta alternativa está correta. O narrador evoca o contexto da Inconfidência, com expressões pomposas como “dignos e solenes”, “acontecimentos importantes da nossa história” e “heroísmo”, e liga esse cenário a ratos que passeiam entre os homens e entram no crânio de Tiradentes. A imagem repugnante contrasta com a austeridade da cena histórica e produz o efeito desconcertante.

    Não revisado · Explicação gerada por IA; pode conter erros.

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Fonte e auditoria
Código INEP
140944
Código da prova
1205
Arquivo do PDF
ENEM_2023_P1_CAD_04_DIA_1_ROSA_AMPLIADA.pdf